Ninguém espera a resposta de um bilhete de adeus

Tudo bem. Pode ir.

Eu queria te dizer tanta coisa…

mas eu não consigo mais.

Foram tantas idas e voltas, esforços em vão…

que não acredito mais em paixões com sacrifícios e barreiras…

E o que eu sinto é água corrente.

*dedicado a dois pianistas. Um deles se chama Cesar Camargo Mariano.

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Mas no meu canto estarão sempre juntos

Eles estavam muito felizes. Começaram a namorar naquela noite e queriam comemorar. Os sorrisos eram contagiantes. Mas eu tentei me manter neutro diante daquela situação. Não tenho muita fé em relacionamentos que acontecem tão rapidamente. Mas quem sabe daquela vez estava enganado?

- Então, onde vocês se conheceram?

Foi o suficiente para presenciar a cena mais constrangedora de toda a noite. Com aquela pergunta simples, até desinteressada (casais só são interessantes para eles mesmos, dentro do núcleo) foi a chave que abriu a caixa de pandora.

Ela disse que eles se encontraram na fila do supermercado, na sessão de produtos de limpeza. Ele, ao mesmo tempo, falou que se viram no estacionamento, quando ela quase bateu no carro dele. Olhando pra ele, disse que era uma exímia motorista. Após risadas sinalizando a necessidade de mudar de assunto, pedimos bebidas. Ele tentou adivinhar que ela queria Martíni, ela supôs que ele pediria Whisky bem gelado. Erraram ambos: pedimos uma cerveja para mim e vinho para eles. Afinal eles são um casal. E casal deve pensar como um só. A técnica do denominador comum era um paliativo para as constrangedoras diferenças.
Não podiam faltar carinhos gratuitos e artificiais. Ela virava o rosto para um lado, o mesmo dele. E os rostos tentaram se encontrar algumas vezes. O beijo ora era seco, ora meloso demais. Vi um baile de teias salivares pelo ar. Fui ao banheiro. Disse-lhes que como estava bebendo sem ter comido nada antes, o álcool já estava me embrulhando o estômago. Na verdade, era aquela mistura sem gosto na minha frente me fazia mal.
Ele tentava falar das notícias do Brasil. Ela desconversava falando mal das colegas de trabalho. O suficiente para que eu reparasse na imagem deles. Ele parecia elegante, bem vestido, com as unhas muito bem feitas e dois aneis numa mão, representando uma viuvez recente. Além do cabelo artificalmente loiro muito bem armado, ela estava caracterizada como uma candidata a corpo de baile de um programa de auditório. Pareciam o yin e o yang. Um representava o que faltava no outro. Mas estranhamente, eles pareciam bem um com o outro.
Uma semana depois, ele me telefonou. O namoro terminou porque descobriram gostar do mesmo sabor de sorvete. E quase brigaram quando pararam num quiosque e só havia um daquele sabor. Ela esperava que ele comprasse para ela. Ele queria que ela escolhesse outro sabor. Então perceberam que em nada combinavam.
Fingi que lamentei, pois eu já sabia. Citei-lhe o Milton Nascimento, dizendo que no meu canto estarão sempre juntos. Na verdade, nunca estiveram. E se separaram quando deveriam ficar.

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Interesse sincero, puras intenções

Ele havia conseguido com uma ex namorada, médica, uma consulta com aquele oncologista. Ela, filha de um empresário no ramo de cosméticos, seria consultada por um grande amigo da família. Ele é pobre, migrante e divide uma kitinete com três amigos. Ela, uma elegante e cosmopolita publicitária.
Seria o início perfeito de uma história de paixão à primeira vista, se eles não tivessem uma coisa em comum, uma ausência em comum: tempo de vida.
Estavam ali naquela salinha, entre revistas antigas de fofoca, separados por uma mesa de centro com um vaso com orquídeas artificiais. A mesa simbolizava o fosso que havia entre a realidade financeira de cada um. Mas só ele sabia disso. Ele a conhecia dos jornais, já a atendeu uma vez, quando ela comprara, na loja em que ele trabalha, uma bolsa nova para o pai. Logo aquela bolsa que ele tanto queria, mas não tinha condições de adquirí-la.
Cinco minutos depois, eles se olhariam. Na verdade, ele a faria notá-lo. Ela estava destruída. Ele tentava mudar de filosofia. Se não conseguira vencer a doença, que aproveite o máximo do que resta. “Restam-me poucos goles. Façamos um brinde e bebamos intensamente”.
Ela, desiludida com aquele linfoma, precisava de força para encarar a realidade, da qual ele queria fugir.
Começaram a conversar. Saíram para jantar. Depois foram ao cinema. Outro dia passaram um fim de semana na casa de veraneio da família dela.
Ela precisava do otimismo dele. Ele precisava do dinheiro dela. Ambos tentavam agarrar-se a um fiapo de vida que lhes restava.
Hoje faz oito meses que ela morreu. Ele sente a falta dela, mas compensa a saudade com a máquina de café espresso que ela comprou pra ele uma semana antes da morte.

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Até a próxima estação

Encerro mais um expediente de sexta feira, que chega rápida e desapercebida, como o crepúsculo. Enquanto todos comemoram e se preparam para um happy hour, me apronto para mais um fim de semana sozinha. Compro uns maços de cigarro, algo congelado – chega de saladinhas – um sorvete, talvez.
Não, não sou uma mulher infeliz. Sou mediocremente alegre. Quando não trabalho, leio, vou ao cinema, cozinho – muito bem, diga-se de passagem – e de vez em quando, recebo algumas amigas – também sozinhas, já que as casadas nunca saem de casa sem os maridos e os filhos.
Aprecio minha liberdade. As contas estão sempre equilibradas, não há crianças para bagunçar a casa, tirar o sono quando adoecem, nem para pagar escola cara. Nada de animais de estimação. Eles são iguais aos filhos, tirando a herança genética malfadada do dono. Meus filhos são os livros policiais que leio. Tenho muitos.
Tampouco quero casar. Quando vejo minhas amigas compometidas engordando, entrando numa cela de vontades do parceiro, abrindo mão de seu potencial para agradar ao “amor”. Chega a ser patético. A impressão que dá é de que eles as fazem um favor, salvando as pobres donzelas do abandono. Coitadas.
Alguns anos atrás, fui pedida em noivado. Estava tudo perfeito, mas ele atirou em nossos pés quando disse que estaríamos sempre juntos. Temi pela minha individualidade. Ele é de câncer. Quando me imaginei fazendo o mesmo papel das minhas amigas salvas pelos super homens, recusei. Perdemos contato, mas soube que ele casou com uma moça mais nova, que logo se encantou por sua juventude e sua conta bancária.
Eu tenho tido algumas paixões. Histórias breves, instantâneas. Livres. Mas tal liberdade tem um preço: são relações sozinhas. Sem beijos, abraços. Apenas alguns toques acidentais. E muito amor.
Cinco e meia da tarde. Chegou o ônibus.
Durante a viagem, vejo rostos. Em meio a tantas expressões idênticas de cansaço e desgosto da vida, busco um quase sorriso, um par de olhos brilhando, um mínimo sinal de diferença, em meio a tanta gente igual.
E assim vão passando os dias. Vivo de paixões platônicas e discretas. Basta um olhar distraído e pronto: já faço planos, imagino cenas. E até consigo ser feliz, mesmo que dure até a próxima estação.

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Quase invisível

Ensaiei uma olhada de lado, mas meu canto de olho não permitiu o alcance. Teria de mover a cabeça. Mas caso estivesse equivocada, teria em resposta um olhar de reprovação e uma expressão de inimigo.
Não entendo por que todo mundo parece se odiar aqui. É como se elas fossem incapazes de expressar qualquer sinal de felicidade. Imagina de solidariedade.
O metrô balançava e a pessoa seguia o mesmo ritmo. Mas isso não servia de indício, pois todos seguiam a mesma dança malhumorada. Cabeças movem-se na direção das curvas do túnel.
Uma nova estação. Alguns descem. E ele permanece sentado ao meu lado. À medida que passam as estações, meu medo e destino parecem mais perto. E o que me paraliza é a possibilidade de que ambos sejam a mesma coisa.
Lembrei de uma prima, que quando me viu arrumando as malas, me alertou sobre os sequestros relâmpagos que são moda naquela cidade tão grande. Cuidado com quem senta ao seu lado, dizia ela. Quase esbocei um sorriso ao lembrá-la mas tive medo de o vizinho notar alguma mudança e achar que eu percebi seu plano maligno. E se eu for mesmo seguida e sequestrada na porta de casa? A mão começou a suar frio.
Não tinha nada a perder, o perigo já estava à vista. Tomei coragem e olhei para o lado. Virei o rosto inteiro, assumi pra mim e para o outro que enfrentaria o desafio.
Ao olhá-lo, não vi expressão nenhuma, olhos fixos. Parecia que estava em transe. Nem um piscar, nem um mínimo movimento no rosto. Parecia em coma. Sonâmbulo. Ou morto.
Fiquei observando aquele rosto, esperando qualquer reação. Nada.
Cheguei ao ponto. Levantei e fui. Nunca mais vi aquela pessoa inerte.
No dia seguinte, vejo na capa o jornal, a manchete: homem viaja de metrô morto.

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cinema mudo

Um não reverbera na sala em reforma.
- Não vou abrir mão da minha liberdade.
- Mas eu pensei que…
- Pensou errado, querido. A idade tá chegando, eu sei, mas não acho que seja o momento certo pra casar.
- E essa reforma?
- Esperei por anos para fazê-la. Era um projeto antigo. Queria ver essa casa maior, mais moderna, mais parecida comigo. Ela lembrava muito meu ex-marido.
- Então ele é o problema? Você não quer casar comigo por causa dele?
- Não! Não viaja, caramba! Não é ele – suspira e baixa a cabeça – sou eu.
- Fala comigo! Me conta o que é então!
- Esse casamento mexeu muito comigo. Não é o ex, mas é como eu era, como eu lidava com isso de ser casada. Eu vivia para esse casamento. Chegou um momento que eu não tomava decisão nenhuma sozinha. Quando a gente se separou, eu não era nada. Tentei encerrar a conta conjunta que a gente tinha umas 4 vezes, e nunca conseguia, porque esquecia o mesmo documento. Nesse dia, prometi a mim mesma que nunca mais voltaria ao esquema de depender de ninguém. Quando eu te conheci, te falei que não queria namoro. Você conhece a história…
- Sim, que você bebeu demais e a sua carência veio à tona?!
- É… e você sabe quanto eu detesto isso em mim. Bem, eu queria tirar da minha vida a lembrança da pessoa debilitada que eu era. E odiava os móveis que ele comprou, mandou deixar e montou; detestava a casa que ele me convenceu a comprar, planejou e madou fazer… Queria transformar minha casa em minha mesmo.
- E é por causa desse seu trauma que você não quer morar comigo?
- Você dorme aqui quando quiser. Mas não quero deixar de ter meu espaço.
- E você acha que quero viver à sua sombra? Você acha que quero depender ou que você dependa de mim? Será que não deu pra perceber isso nesses quase três anos que a gente tá junto? Acho que não, né? Você só enxerga essa mágoa do ex marido. Quer saber? Fica aí sozinha que eu não te encho mais o saco. Seja independente então. Não me procura mais quando estiver carente.
- Não, você não entendeu…
- Vampira!!!

Então ela volta ao filme no qual ela é a diretora, contrarregra, sonoplasta, protagonista – e às vezes vilã também. Mas algo está estranho. O cenário está muito grande e vazio. Um filme mudo.

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Virtualmente

 

Obrigado pela mensagem. Adorei a apresentação em slides que você me mandou. Vi cada lance, cada imagem, cada detalhe. E dei boas risadas no final.Fiquei feliz de você ter lembrado de mim.Quando quiser, mande mais mensagens ou notícias suas.

Abraços

Um minuto depois, uma resposta.

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