Eles estavam muito felizes. Começaram a namorar naquela noite e queriam comemorar. Os sorrisos eram contagiantes. Mas eu tentei me manter neutro diante daquela situação. Não tenho muita fé em relacionamentos que acontecem tão rapidamente. Mas quem sabe daquela vez estava enganado?
- Então, onde vocês se conheceram?
Foi o suficiente para presenciar a cena mais constrangedora de toda a noite. Com aquela pergunta simples, até desinteressada (casais só são interessantes para eles mesmos, dentro do núcleo) foi a chave que abriu a caixa de pandora.
Ela disse que eles se encontraram na fila do supermercado, na sessão de produtos de limpeza. Ele, ao mesmo tempo, falou que se viram no estacionamento, quando ela quase bateu no carro dele. Olhando pra ele, disse que era uma exímia motorista. Após risadas sinalizando a necessidade de mudar de assunto, pedimos bebidas. Ele tentou adivinhar que ela queria Martíni, ela supôs que ele pediria Whisky bem gelado. Erraram ambos: pedimos uma cerveja para mim e vinho para eles. Afinal eles são um casal. E casal deve pensar como um só. A técnica do denominador comum era um paliativo para as constrangedoras diferenças.
Não podiam faltar carinhos gratuitos e artificiais. Ela virava o rosto para um lado, o mesmo dele. E os rostos tentaram se encontrar algumas vezes. O beijo ora era seco, ora meloso demais. Vi um baile de teias salivares pelo ar. Fui ao banheiro. Disse-lhes que como estava bebendo sem ter comido nada antes, o álcool já estava me embrulhando o estômago. Na verdade, era aquela mistura sem gosto na minha frente me fazia mal.
Ele tentava falar das notícias do Brasil. Ela desconversava falando mal das colegas de trabalho. O suficiente para que eu reparasse na imagem deles. Ele parecia elegante, bem vestido, com as unhas muito bem feitas e dois aneis numa mão, representando uma viuvez recente. Além do cabelo artificalmente loiro muito bem armado, ela estava caracterizada como uma candidata a corpo de baile de um programa de auditório. Pareciam o yin e o yang. Um representava o que faltava no outro. Mas estranhamente, eles pareciam bem um com o outro.
Uma semana depois, ele me telefonou. O namoro terminou porque descobriram gostar do mesmo sabor de sorvete. E quase brigaram quando pararam num quiosque e só havia um daquele sabor. Ela esperava que ele comprasse para ela. Ele queria que ela escolhesse outro sabor. Então perceberam que em nada combinavam.
Fingi que lamentei, pois eu já sabia. Citei-lhe o Milton Nascimento, dizendo que no meu canto estarão sempre juntos. Na verdade, nunca estiveram. E se separaram quando deveriam ficar.